Um inquérito da Ordem dos Médicos a 700 adultos mostra dificuldades de marcação, desigualdade no acesso e custos que levam alguns utentes a adiar tratamentos.
Um estudo promovido pela Ordem dos Médicos, com resultados divulgados pela agência Lusa na madrugada de 5 de novembro de 2026, revela que 29,9% dos participantes declararam não ter recebido cuidados de saúde dentro de um prazo que consideravam adequado. O motivo indicado foram as dificuldades em conseguir marcação e as listas de espera. O resultado descreve respostas a um inquérito — não o número administrativo de pessoas cuja consulta ultrapassou um prazo legal definido.
A quem foi perguntado e quando
A investigação, coordenada por Tiago Correia, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa, baseou-se em 700 entrevistas telefónicas a adultos de várias regiões do país, realizadas entre setembro e novembro de 2025. Segundo a descrição da Lusa, tratou-se de uma amostra representativa e estratificada regionalmente. As conclusões são comunicadas em novembro de 2026; por isso, não é correto apresentar as respostas como medições em tempo real da situação de novembro de 2026.
Custos que também afastam pacientes
Os resultados noticiados indicam que 6,7% dos inquiridos deixaram de realizar consultas, exames ou tratamentos por motivos financeiros. Outros 4,4% declararam não comprar medicamentos prescritos devido ao preço. São grupos identificados por perguntas diferentes, pelo que não podemos somar as duas percentagens e concluir que correspondem necessariamente a pessoas distintas. O estudo aponta para obstáculos económicos mesmo entre quem reconhece precisar de cuidados.
SNS e privado: perceções diferentes não são taxas de desempenho
Quarenta por cento classificaram como fácil ou muito fácil o acesso ao Serviço Nacional de Saúde na zona onde residem; 36,3% consideraram-no difícil ou muito difícil. Para o setor privado, os valores noticiados são 63,5% de facilidade e 11,4% de dificuldade. Os próprios autores alertam que essas perceções não permitem comparar diretamente a eficácia dos dois sistemas, porque vários cidadãos recorrem a ambos e enfrentam necessidades diferentes. Comparar apenas as percentagens como se fossem indicadores de eficiência seria metodologicamente incorreto.
Quem mais precisa pode ter menos continuidade
A equipa científica identifica três perfis — ‘Vulneráveis’, ‘Episódicos’ e ‘Integrados’ — e descreve uma situação paradoxal: pessoas com maior carga de doença e maior necessidade podem ser as que encontram maior dificuldade para manter acompanhamento contínuo. Quase metade dos inquiridos enquadra-se, segundo a Lusa, no perfil de maior vulnerabilidade. Esta classificação depende de critérios de análise que devem ser examinados quando o relatório integral estiver disponível; não é equivalente a uma categoria clínica ou a um diagnóstico individual.
Apresentação prevista no programa de 5 de novembro
A Ordem dos Médicos agendou para as 09h30 de 5 de novembro o encontro «Rumo para a Saúde», em Lisboa, e para as 09h35 a apresentação por Tiago Correia. O programa contempla o acesso a cuidados, prioridades do SNS e tempos de espera.
Documentação necessária para interpretar o estudo
O relatório integral, os critérios de ponderação e os intervalos de confiança são necessários para analisar o alcance dos dados. A comparação com os tempos de espera oficiais implica consultar registos de consultas e cirurgias discriminados por região e especialidade.
O que é público e o que permanece por esclarecer
Fontes consultadas
O que medem exatamente os 29,9%
O estudo da Ordem dos Médicos baseou-se em 700 entrevistas telefónicas realizadas entre setembro e novembro de 2025, e não em medições clínicas feitas durante novembro de 2026. A equipa coordenada por Tiago Correia, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa, perguntou aos participantes sobre acesso, utilização dos serviços, perceção do seu estado de saúde e dificuldades económicas.
A percentagem de 29,9% traduz a proporção de inquiridos que afirmou não ter recebido cuidados dentro de um prazo considerado adequado, indicando barreiras de marcação ou listas de espera. Não corresponde necessariamente à percentagem da população portuguesa que ultrapassou um prazo máximo legal de resposta garantido; esse indicador exige bases administrativas e critérios de urgência clínica que o inquérito não mede diretamente.
A amostra e os limites de extrapolação
A Lusa descreve uma amostra representativa, estratificada por região, com adultos de todo o país. Assim, não é rigoroso apresentar diferenças décimas de ponto como variações estatisticamente significativas face a estudos anteriores que não foram diretamente comparados.
O estudo foi concluído em 2025 e apresentado em 2026. Uma eventual mudança de políticas públicas no intervalo não pode ser avaliada a partir de uma única recolha.
Ficar sem medicamentos por falta de dinheiro
As respostas publicadas incluem 6,7% de pessoas que deixaram de realizar consultas, exames ou tratamentos por razões financeiras, e 4,4% que disseram não ter adquirido medicamentos prescritos devido ao custo. Não podemos somar ambas as percentagens para afirmar que 11,1% são pessoas diferentes: os grupos podem sobrepor-se.
O impacto social da despesa direta em saúde depende do rendimento, da frequência de cuidados e da existência de apoios. Sem cruzamentos sociodemográficos, não é possível apontar uma faixa etária, freguesia ou rendimento como responsável pela diferença. A investigação é um sinal para procurar dados complementares e ouvir associações de doentes, não uma prova de negligência individual de profissionais.
SNS e cuidados privados: duas formas de acesso
A informação preliminar aponta que cerca de 40% dos participantes consideraram fácil ou muito fácil o acesso ao SNS na área onde vivem, contra 36,3% que o classificaram como difícil ou muito difícil. No setor privado, as perceções de facilidade e dificuldade foram de 63,5% e 11,4%, respetivamente.
Comparar estes valores sem considerar os serviços procurados e a capacidade de pagar seria enganador. As pessoas podem recorrer tanto ao público como ao privado; além disso, procedimentos complexos e urgentes não têm oferta, financiamento ou critérios de acesso idênticos aos de consultas de rotina. O inquérito mede perceções e experiências declaradas, não uma tabela de produtividade ou um ranking de qualidade entre prestadores.
Três perfis sociais e uma contradição na continuidade de cuidados
Os investigadores definiram três grupos analíticos, designados «Vulneráveis», «Episódicos» e «Integrados». A equipa sustenta que pessoas com maior carga de doença podem ter mais dificuldades em manter acompanhamento continuado. Quase metade da amostra integra, segundo a Lusa, um grupo de maior vulnerabilidade.
Uma classificação por perfis não é um diagnóstico clínico, nem demonstra que todas as pessoas desse grupo tiveram falhas graves na assistência. A relevância para políticas públicas está em cruzar necessidade, condição social e continuidade efetiva de cuidados, em vez de tratar todas as regiões ou pessoas como se tivessem o mesmo risco.
Cuidadores informais: pressão que não aparece nas filas de espera
Outros resultados do mesmo estudo divulgados pela Lusa indicam que 14,7% dos participantes disseram prestar regularmente cuidados a alguém com problemas de saúde prolongados. Entre esses cuidadores, 34% afirmaram dedicar pelo menos vinte horas semanais a essa função. Mais de 40% consideraram que o Estatuto do Cuidador Informal não trouxe efeitos positivos nem para a saúde mental nem para os rendimentos.
Estes números são respostas a perguntas distintas e têm denominadores diferentes. Não devem ser transportados para o universo de todos os portugueses como se fossem percentagens populacionais absolutas sem considerar a definição do grupo de cuidadores. A ligação com acesso à saúde está na continuidade de acompanhamento e na sobrecarga de familiares quando faltam respostas formais.
A abordagem «Uma Só Saúde» e os comportamentos preventivos
A RTP também divulgou resultados da dimensão «Uma Só Saúde»: 83,9% dos inquiridos consideraram essencial a cooperação entre medicina humana, veterinária, ambiente e decisores públicos para enfrentar ameaças sanitárias. Em contrapartida, 12% admitiram ter tomado antibióticos sem receita médica. Os autores identificam ainda lacunas de conhecimento sobre o impacto do uso de antimicrobianos na produção animal.
Estes resultados pertencem ao mesmo estudo, mas não explicam causalmente o número de pessoas que declarou ter aguardado cuidados demasiado tempo. São dimensões diferentes de literacia, atitudes e comportamento preventivo que merecem títulos próprios em futuras peças, caso se obtenha a ficha metodológica e se evite repetir o artigo central.
Apresentação do estudo agendada para 5 de novembro
O programa divulgado pela Ordem dos Médicos previa para 5 de novembro o encontro «Rumo para a Saúde», com início às 09h30 e apresentação do estudo por Tiago Correia às 09h35. O programa incluía três mesas redondas sobre prioridades, grupos com necessidades diferentes e tempos de espera, além de uma intervenção prevista de Carlos Cortes às 11h55. Estes são horários anunciados, não um relato independente das intervenções efetivamente realizadas.
Uma avaliação completa dos resultados exige compará-los com os tempos máximos de resposta garantidos, os boletins de consultas e os registos de cirurgias. O programa do encontro não permite antecipar declarações de intervenientes.
Os documentos que podem transformar um resultado em investigação
São necessários a ficha técnica do estudo, questionário, base de ponderação, resultados por região e estrato, e critérios de construção dos grupos. Para validar a situação assistencial é pertinente comparar esses resultados com os tempos de espera oficiais, reclamações, listas de consultas e cirurgias e relatórios de monitorização publicados.
Uma pergunta legítima é se os grupos com mais necessidade recebem menos acompanhamento longitudinal, e quais as barreiras de recursos humanos, financiamento e gestão comprováveis. Isso exige cruzamentos estatísticos, não culpabilização de profissionais com base apenas numa entrevista telefónica.




