As bebidas energéticas e os suplementos com cafeína ou outros estimulantes surgem associados a uma maior proporção de notificações de acontecimentos cardiovasculares graves numa análise preliminar divulgada pela American Heart Association. O trabalho analisou 28.345 relatos de efeitos adversos recebidos pela agência norte-americana FDA entre 2017 e 2025 e foi tornado público a 2 de novembro de 2026, antes das sessões científicas que decorrerão de 6 a 9 de novembro em Chicago.
A descoberta justifica atenção, sobretudo no grupo dos adultos jovens. Mas não prova que estes produtos causem por si mesmos paragens cardíacas ou enfartes. Também não permite calcular diretamente a probabilidade de uma pessoa sofrer um problema depois de consumir uma bebida energética. A distinção é decisiva para interpretar os números que começaram a circular na imprensa portuguesa esta madrugada.
O que foi realmente estudado
Os investigadores examinaram uma base de dados de notificações espontâneas de eventos adversos, não um ensaio clínico ou um estudo que acompanhasse todas as pessoas que consomem cafeína. Dos 28.345 relatos analisados, 854 mencionavam bebidas energéticas ou suplementos com cafeína e outros estimulantes; 27.491 referiam produtos diferentes utilizados como comparação.
A categoria de estimulantes incluía cafeína, metilxantinas como as presentes em certos extratos de plantas e substâncias simpaticomiméticas encontradas em suplementos. Os autores agruparam os produtos pelos ingredientes, não por marcas. Não é possível, por isso, atribuir uma conclusão específica a uma determinada bebida vendida em Portugal com base neste estudo.
Os relatos foram submetidos à FDA por cidadãos, profissionais de saúde e empresas. A base de dados reúne suspeitas de acontecimentos adversos e não regista o número total de consumidores sem sintomas. Essa limitação afeta de forma central a interpretação dos resultados.
Os valores que chamaram a atenção
No conjunto de notificações, referências a paragem cardíaca apareceram aproximadamente 11 vezes mais frequentemente em relatos associados a produtos estimulantes do que entre as notificações do grupo comparador. Referências a enfarte foram cerca de 4,5 vezes mais frequentes, e as de arritmias ventriculares ou palpitações cerca de quatro vezes mais frequentes.
Também foram encontradas diferenças nas notificações de aceleração do ritmo cardíaco, dor no peito e desmaio. Aproximadamente 45% dos relatos de problemas cardiovasculares associados a cafeína ou estimulantes envolviam pessoas entre 18 e 34 anos.
Esses valores descrevem proporções dentro dos relatórios, e não o risco absoluto de quem bebe uma lata. A frase «beber energéticos multiplica por 11 o risco de paragem cardíaca» seria incorreta e não é sustentada pelo método utilizado.
Por que razão associação não é causa
Uma notificação de suspeita pode ser mais provável quando o consumidor associa um sintoma ao produto, e menos provável quando o episódio não é reconhecido ou comunicado. A base também não permite avaliar integralmente doenças anteriores, consumo de medicamentos, combinação com álcool ou outras substâncias, quantidade ingerida e atividade física intensa.
Há ainda uma questão estatística: sem conhecer o número de pessoas expostas que não tiveram qualquer evento, não se pode calcular uma taxa de incidência válida para todos os consumidores. A análise também não é capaz de isolar plenamente o efeito de um ingrediente de outras características da pessoa ou da situação.
A própria American Heart Association especificou que o resumo científico MDP0323 não passou ainda pela revisão por pares exigida a um manuscrito científico completo. A apresentação num congresso pode suscitar investigação adicional, mas não confere automaticamente a mesma robustez de um grande estudo controlado publicado após revisão.
O cardiologista Gregory Marcus, citado no comunicado oficial da associação e não envolvido na investigação, considerou que os resultados levantam preocupações biologicamente plausíveis, mas destacou que outros fatores podem ter influenciado as associações.
Cafeína, doses e diferenças entre produtos
O uso de cafeína não é uniforme. Um café, uma bebida energética e um suplemento pré-treino podem diferir muito na concentração, na dose ingerida e na presença de outros estimulantes. Algumas bebidas contêm, por unidade de volume, várias vezes a cafeína de um café comum; certos suplementos concentram doses ainda superiores.
A AHA refere que até 400 miligramas de cafeína por dia são geralmente considerados seguros para a maioria dos adultos saudáveis, mas essa referência não constitui autorização universal de consumo. Uma pessoa com arritmias, doença cardiovascular, gravidez ou medicação relevante pode necessitar de limites diferentes definidos em contexto clínico. Crianças e adolescentes exigem cuidados específicos.
Também importa somar as fontes ao longo do dia: café, chá, refrigerantes, energéticos e suplementos. A impressão de que cada produto é isoladamente inofensivo pode ocultar uma ingestão total elevada.
O que significa isto para Portugal
Os dados analisados foram recolhidos nos Estados Unidos; não permitem estimar quantas pessoas em Portugal terão um evento cardiovascular relacionado com estas bebidas. Podem, no entanto, justificar atenção à rotulagem, sensibilização dos consumidores e investigação de hábitos de combinação de estimulantes.
A informação responsável deve indicar a quantidade de cafeína por embalagem, distinguir produtos muito diferentes e evitar alarmismo com percentagens que não são aplicáveis à população geral. Quando existam palpitações persistentes, dor no peito, falta de ar, desmaio ou outros sintomas de alarme, a avaliação clínica é essencial. Sinais de emergência exigem assistência urgente independentemente da causa presumida.
Um profissional de saúde poderá perguntar por consumo habitual de energéticos ou suplementos ao avaliar sintomas cardiovasculares. Esta é uma aplicação prudente dos achados sem assumir diagnósticos pela leitura de uma notícia.
O que falta à investigação
Para compreender o verdadeiro risco são necessários estudos com populações de consumo definidas, doses e hábitos documentados, controlo de fatores de confusão e avaliação independente. A publicação de um manuscrito revisto por pares permitirá analisar melhor os métodos e as limitações.
O congresso da American Heart Association, de 6 a 9 de novembro, será uma oportunidade para discutir o resumo e colocar questões aos autores. Isso não equivale a saber já qual será o resultado de estudos futuros.
O que sabemos: houve mais notificações de determinados eventos cardíacos na categoria de produtos estimulantes dentro da amostra estudada. O que ainda não sabemos: se existe uma relação causal específica, qual o risco absoluto e como se distribui por doses, marcas e populações.
EL ESTÁNDAR Portugal continuará a tratar os resultados com o mesmo critério exigido às notícias políticas: dados verificáveis, limites expressos e conclusões proporcionais à evidência.





